Jorge Luiz Pereira Correia, Doutor em Educação

Quando Maria, mãe solo de três filhos e moradora da zona rural do Ceará, concluiu sua graduação em Pedagogia pela EaD, ela se tornou a primeira da sua família a conquistar um diploma universitário. Hoje, é professora na escola da própria comunidade. Sua conquista não é um caso isolado — é o retrato do que a Educação a Distância pode fazer: transformar vidas, onde quer que estejam.”

Facsu-EAD

Histórias como a de Maria estão longe de ser exceção. Elas compõem um movimento silencioso, porém poderoso, que vem redesenhando o acesso à educação superior no Brasil. A Educação a Distância (EaD) deixou de ser coadjuvante para ocupar papel central na trajetória acadêmica de milhões de brasileiros — muitos deles invisibilizados por um sistema historicamente concentrado nos grandes centros urbanos.

Ainda assim, a EaD segue enfrentando olhares desconfiados. Rótulos como “formação inferior” ou “ensino precário” insistem em sobreviver, mesmo diante de uma realidade que os contradiz com força. A crítica, muitas vezes genérica e desinformada, ignora aquilo que os números revelam com clareza — e que a vida comprova com mais eloquência ainda.

Segundo o Censo da Educação Superior de 2023, 66,4% dos novos ingressantes optaram por cursos a distância. Atualmente, a modalidade responde por 49,2% das matrículas no ensino superior, somando aproximadamente 4,9 milhões de estudantes.

Mas por trás dos números estão as pessoas. Homens e mulheres que trabalham o dia inteiro e estudam à noite. Mães que amamentam com um olho no bebê e outro na tela. Jovens que vivem longe dos grandes centros e veem, na EaD, sua única porta de entrada para o mundo acadêmico. Para muitos, a EaD não é uma alternativa: é a única possibilidade real de sonhar com um diploma.

E os impactos são concretos. Em 2023, 43% dos formandos do ensino superior vieram da EaD, um crescimento expressivo de 22,2% em relação ao ano anterior. Enquanto isso, os cursos presenciais registraram queda de 2,5%. Mais do que isso: 70% dos egressos da EaD relatam ter aumentado sua renda após a conclusão do curso. Ou seja, estamos falando de uma modalidade que não apenas ensina — ela transforma destinos.

A EaD também promove o desenvolvimento de habilidades cada vez mais valorizadas no século XXI: autonomia, autogestão, pensamento crítico e fluência digital. Ambientes virtuais bem estruturados, que adotam metodologias como a aprendizagem baseada em problemas (PBL), sala de aula invertida e fóruns colaborativos, mostram que o ensino online pode ser tão (ou mais) desafiador e estimulante quanto o presencial.

Naturalmente, como em qualquer forma de ensino, a EaD exige cuidado. O crescimento precisa ser acompanhado de regulação rigorosa, formação docente adequada, infraestrutura tecnológica robusta e compromisso institucional com a qualidade. Mas esses critérios devem valer para toda a educação — não apenas para a modalidade a distância.

A EaD não é inimiga da qualidade. Pelo contrário: ela é um caminho legítimo para garanti-la onde antes não havia acesso algum. É parte de um projeto educacional que não se contenta com a repetição de privilégios, mas aposta na democratização do saber como força transformadora.

Educar a distância é, no fundo, aproximar pessoas daquilo que lhes foi historicamente negado: o direito de aprender, crescer e ocupar seu lugar no mundo — de onde estiverem, como puderem, quando quiserem.